sábado, 13 de novembro de 2010

"Retrato frio" - parte 6 de... "Não digas isso por favor"

... Estava longe de imaginar que hoje seria o pior dia e a mais fria noite da minha vida, nunca pensei (nem em pesadelos) chegar a este ponto. O Eduardo chegou a casa mais cedo do que o habitual, as minhas pernas não se perderam tanto como o habitual pelas ruas do meu Porto, à qual um dia chamei de "Porto de Abrigo"... Era mesmo isso que eu ia precisar mas nunca pensei que ia ser tão depressa, ou melhor, nunca pensei que isso fosse acontecer. O Eduardo entrou em casa e disse-me que ia sair de Portugal por uns tempos, não sabia quanto e que ia deixar a casa a um familiar, por isso, era o meu fim no conforto do lar. Nunca mais me esqueço, olhei-o nos olhos, com os meus lavados em lágrimas:

- Não me faças isto, por favor! Porque tens de ir? Logo agora que eu preciso de ti...

- Mário, não me ponhas pior do que já estou, ainda podes tomar um banho e eu arranjo-te as minhas roupas de inverno todas, vou amanhã para os Estados Unidos..

- Leva-me contigo! Começo lá uma nova vida, ninguém me conhece... Aqui já não sou o Mário que enchia salas e que as pessoas veneravam nas boémias Galerias e Foz Velha.

- Desculpa, tens de ir embora hoje.

- Para onde vou? Dormir em que sítio? Já não conheço a minha cidade, sinto-me um pedaço de mau cheiro neste pequeno mundo que é o Porto. Só te tenho a ti, não me faças isso...

- Desculpa-me, não quero fazer mas tens de ir.

Fiz as malas, arrumei tudo o que tinha meu e dele (que me ofereceu) tomei um último banho (sabe-se lá quando tomarei o próximo), hoje serei oficialmente, mas não o digo orgulhosamente, um sem abrigo do Porto, mais um dos seiscentos e oitenta e cinco... Ai! Que faço à minha vida? Se eu fosse forte atirava-me para a frente de um comboio mas nem isso tenho coragem para fazer. Durante o banho vieram-me à cabeça todos os bons momentos que vivi com o Eduardo pelas noitadas do Porto, pelas noites à conversa com inglesas e alemãs e depois deliciá-las com música, ora em minha casa, quando eu era solteiro, ou no Twins no velho piano de cauda Steinwag; os dias de ensaio, os poemas que ele escrevia e que me ligava, fosse a que horas fosse, meu Deus, e agora isto! SEM ABRIGO! Sem um tecto para me proteger, sem uma família para amar... Resta-me uns euros na carteira, tudo o que guardei "debaixo do colchão" de alguns concertos. Não tenho esperança nenhuma de recuperar o que me devem, mas agora não consigo pagar nem ao meu melhor amigo um jantar para me despedir...

Esta primeira noite vai ser a pior de todas: o frio aperta, a polícia ronda os lugares onde os sem abrigo se escondem, uma criança brinca indiferente com o barulho das ambulâncias rumo às urgências do St.º António. Para onde vou? Arcadas do tribunal? Fingo-me doente e arranjo uma cama pelo menos esta noite no SO? Sinto-me um animal abandonado, divago, vagueio, perco-me no meu Porto. Encostei-me a um banco nos jardins da Cordoaria, não preguei olho a noite toda... O amanhecer chegou devagar e com ele veio a chuva e o vento gélido de Dezembro. Ai! Será que me restam muitos dias como sem abrigo? Conseguirei sobreviver neste "mundo" da sobrevivência? Nunca pensei chegar a este ponto: arrumei carros durante a manhã, bem perto das consultas do hospital de St.º António, travei conhecimento com o António, aquele arrumador que por um ano não foi juíz... Arranjou-me um cigarro e deu-me lume. Nem o quente do café que tomei há minutos me aqueceu suficiente as mãos, quanto mais a alma. Não me sinto, nem física nem mentalmente forte para aguentar o que ainda agora começou e está para se agravar. O dinheiro que fiz deu-me para uma refeição económica para os lados dos Aliados: uma sopa quente, um chá quente (como bebida) e um prego mal amanhado mas que me soube pela vida. A tarde foi fértil em termos de "arrumação" de carros, ainda há pessoas que vêm de uma forma menos má os arrumadores, apenas estamos ali para os ajudar... Quem diria eu, que até há bem pouco tempo dava um euro a um sem abrigo para me ajudar a arrumar o carro hoje sou um deles! Que vergonha...! Não me olhei ao espelho quando fui à casa-de-banho do snack-bar para fazer a minha higiene pessoal: ainda tenho pasta dos dentes e a minha escova, o desodorizante está a acabar... A minha vontade de viver, sinceramente também...

Acabei por comer um hamburguer no MacDonald´s dos Aliados por me encher o estômago e ser barato. A noite, essa? Passei-a nas ruas da confusão, nas Galerias. Comprei um maço de tabaco (é dos poucos prazeres que ainda posso satisfazer) e o jornal roubei a uma senhora que adormeceu no café... Nunca me imaginei a fazer tal coisa, mas é certo que o fiz. Li as notícias do país:

- Portugal em crise!

- Marido mata mulher à facada por ciúmes do vizinho

- Porto vence em hóquei

- Viagem ao Brasil do Presidente X

Tudo isto que parecia banal, quando eu tinha o meu emprego, agora parecia-me ainda mais! Não tenho nojo do meu país, não tenho raiva do meu governo, só tenho pena de mim, por ter chegado onde cheguei e agora não saber o chão que pisei. A noite está a chegar e eu tenho medo... medo dela não passar. Amanhã é mais um dia, se lá chegar...



Porto, 4 de Dezembro de 2003

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