Shakespeare podia ter vivido aqui. Podia
ter dançado na noite de S. João, quando o rio
transborda para as ruas nas correntes
humanas que as inundam. Podia ter escrito
nos invernos da ausência o que a noite
ensina sobre a privação.
Podia ter ensinado, à beira do cais
Que o tempo lascivo corre como a água
Levando o que não há-de voltar e trazendo
O que nunca terá nome nem corpo.
As almas, que empalidecem quando
o sol poente se reflecte nos vidros
cantam bruscamente o verão
Reflexo de um reflexo,
Frutos que se deixam colher pela memória
Seres sem ser que não hão-de-voltar a nascer
Mas o que ele cantou, podia tê-lo cantado aqui.
Todos os lugares são afinal, lugar nenhum
Para quem não habita senão a própria voz:
sonho de outro margem, cantor perdido no labirinto das pontes
Perto da foz, sem o saber, sonhando a nascente
Como se não fosse ele próprio a única fonte.
Poema de Nuno Júdice
In: "Oporto" - de João Paulo
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